Recordações da Foz

Memória do meu avô, Carlos Gomes Oliveira (1913-2005)

 

Desde a infância, até à mocidade, sempre tive uma ligação muito grande e inesquecível com a Foz do Douro (…).

A Foz que eu então conheci era muito diferente da actual e, se por um lado tinha mais beleza, não tinha ainda a bonita pérgula e a balaustrada que tanto vieram beneficiá-la e embelezá-la. Especialmente na Avenida do Brasil, os prédios que existiam não eram grandes, eram habitados por uma só família, não existindo qualquer estabelecimento comercial, o que tornava a Avenida mais simpática. Só muito mais tarde começaram a ser construídos os grandes edifícios que agora a marginam e que não vieram trazer-lhe nenhuma beleza, o que é uma pena. Não existam (…) a esplanada do Rio de Janeiro, entre as duas Avenidas, nem as amplas escadarias e rampas de acesso à praia, não existindo também os vários restaurantes e bares que hoje tanto valorizam aquela orla marítima. Em plano inferior (…), frente à praia do Molhe, existiam duas pequenas casas que foram demolidas aquando da construção da pérgula e da balaustrada. Com estas (…) obras foi operada a grande transformação da Foz (…).

Quantas e quantas vezes tomei o eléctrico 1, fazendo a viagem pela marginal do Douro, contemplando a encantadora vista que sempre tanto me empolgava. Saindo do Infante, passava por Miragaia e pelo grandioso edifício da Alfândega, hoje desactivado das funções aduaneiras, pela Alameda Basílio Teles, pelo antigo e abandonado Convento de Monchique, pelo Ouro, por Sobreiras, chegando à Cantareira, de onde admirava a grande e bela Baía de Sampaio. Depois, o Cabedelo e a imensa vastidão do Atlântico, chegando-se à Foz. E, depois de passar os Pilotos, o atraente Jardim do Passeio Alegre e a Avenida D. Carlos I (vulgo das palmeiras). Mais adiante, o Castelo de S. João da Foz, surgindo, logo a seguir, a Senhora da Luz, rua muito comercial da Foz Velha. E, então, a grande e bela Avenida do Brasil, com continuação na não menos bela Avenida Montevideu, que termina junto ao Castelo do Queijo.

Dividia-se a Foz em duas: a Foz Velha, com um emaranhado de ruas antigas e típicas, e a Foz Nova, com ruas airosas e bem traçadas (…).

Foi precisamente na Foz Velha que tive o meu primeiro contacto com a Foz, ainda muito criança, pelo que não me posso recordar. Devia eu ter menos de três anos, fui com os meus saudosos pais e irmãos passar uma temporada numa casa, pertença da minha avó materna, casa que ficava na Rua do Teatro e foi, entretanto, demolida.

Mas a minha recordação vai para a Rua do Alto de Vila, também na Foz Velha, onde o meu avô paterno possuía casa, e onde habitualmente passava os meses de verão com a família. Desde muito pequeno, também eu lá passava temporadas. E quantas vezes, eu e os meus irmãos, acompanhados pela nossa avó ou uma tia, íamos até à praia da Conceição, que ficava um pouco atrás da praia do Molhe, e que era a nossa praia! Saindo de casa, sempre muito cedo (ia também connosco uma prima mais velha, que vivia com os avós), pela Rua do Alto de Vila, passávamos a Senhora da Luz e descíamos à praia. Chegados lá, e vestidos os nossos vistosos fatos de banho às riscas horizontais vermelhas e brancas ou verdes e brancas, com pernas até ao joelho e meia manga, esperava por nós o banheiro, que nos dava três ou quatro mergulhos, recomendando-nos sempre “Feche a boquinha!”. Às vezes ainda ficávamos um pouco mais na água, agarrados à corda (uma extensa corda, lançada sobre o mar, enquanto havia pé). Mas não tardava que a avó ou a tia nos chamassem, dizendo que já andávamos há tempo demais na água! Depois do banho, íamos para as barracas, levando-nos a banheira uma gamela de pau com água, para tirar a areia dos pés. A seguir, a mesma banheira metia as mãos pela barraca, para nos enxugar as costas. Entretanto, a avó ou a tia esperavam, sentadas debaixo dum enorme coberto de zinco, que ficava sobre um grande estrado de madeira. E lá voltávamos para casa, saboreando um apetitoso pão-de-leite e só depois tomando o pequeno-almoço em casa. (…) Algumas vezes, lá para depois do lanche, íamos ver a praia do Molhe, mas sem apanhar muito sol, que fazia mal…

Mais tarde, já depois da morte dos meus avós, o meu irmão e eu passámos algumas temporadas na Rua do Crasto, na Foz Nova, em casa duns tios paternos. Então já éramos rapazes e, por isso, já gozávamos duma certa autonomia, que nos permitiu uma maior liberdade!

Mais tarde, no início dos anos 30, o meu pai arrendou casa de verão na Foz, primeiro na Rua da Agra, depois na Rua de Gondarém, onde passávamos a temporada. Eu, que nessa altura já trabalhava, só tinha oito dias de férias, sem qualquer subsídio. Por isso, durante a semana, só podia aproveitar bem a praia ao sábado e ao domingo – embora nos outros dias saísse do escritório a correr e, atravessando o rio de barco (custava 1$00), apanhava o eléctrico frente à Igreja de S. Francisco, indo depois direitinho à praia do Molhe. (…)

Por esse tão recuado tempo, as noites da Foz tinham uma extraordinária animação, acorrendo à Avenida do Brasil uma verdadeira multidão, ávida pela frescura do mar, que passava o tempo percorrendo a Avenida, de um lado para o outro (…). Cafés, bares ou esplanadas, quase não existiam. Apenas existia na Avenida um gracioso pavilhão, em torno do qual havia algumas mesas. Ficava esse já demolido pavilhão mais ou menos no mesmo local onde agora existe um outro, revestido a vidro. (…)

Foz da minha despreocupada meninice, Foz da minha alegre e distante mocidade.

(…)

 Carlos Gomes Oliveira, 1997.12.05

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