Gago Coutinho e Sacadura Cabral no Porto e em Gaia

Memória do meu avô, Carlos Gomes Oliveira (1913-2005)

 

Em 1922 o povo português vibrou de incontido entusiasmo com a viagem aérea Lisboa-Rio de Janeiro, levada a cabo pelos intrépidos e gloriosos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, e que foi a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

Descolando do Tejo, no frágil hidroavião Lusitânea, em 22 de Março de 1922, foram vencendo com pleno êxito todas as etapas programadas, até que o Lusitânea acabou por cair ao mar perto dos penedos de S. Pedro e S. Paulo, vendo-se os aviadores confrontados com sérias dificuldades. Em tão difícil situação valeu aos ousados aviadores o cruzador República, da Armada Portuguesa, que tinha a missão de prestar assistência ao Lusitânea e que, por felicidade, navegava nas proximidades. Visto o hidroavião ter ficado inutilizado, foi enviado de Portugal outro aparelho igual, no qual foi concluída, em 5 de Junho, a temerosa viagem, sendo os Aviadores recebidos no Brasil em delírio, calorosamente ovacionados pelo povo brasileiro e pela numerosa colónia portuguesa.

Logo que houve conhecimento da chegada ao Brasil, o povo português veio para as ruas manifestar exuberantemente a sua alegria e entusiasmo por tão grandioso feito. Por todos os lados subiam ao ar inúmeros foguetes, os sinos das igrejas repicavam festivamente, as fábricas apitavam e os numerosos vapores ancorados no rio Douro e no porto de Leixões associavam-se às manifestações de júbilo, fazendo ouvir, alegre e prolongadamente, as sereias de bordo. Quem isto escreve, e a despeito de ter apenas nove anos, também angariou dinheiro para foguetes!

Aquando da visita oficial dos aviadores ao Porto, foram aguardados na estação de S. Bento por uma numerosa multidão, tendo à frente as mais representativas entidades civis e militares da cidade, que depois os acompanharam ao hotel. A recepção por parte do povo foi verdadeiramente apoteótica, em que a multidão, entusiasmada ao rubro, os seguiu até ao Grande Hotel do Porto, o melhor que então existia na cidade, e onde ficaram hospedados. Durante o trajecto, os aviadores foram conduzidos num coche Landau aberto e puxado a cavalos (então os automóveis ainda se contavam pelos dedos…), tendo-se formado um cortejo que subiu a Rua de Santo António e Santa Catarina, até ao hotel. A certa altura do trajecto, os estudantes universitários desatrelaram os cavalos, puxando eles mesmos o Landau. Durante todo o percurso o entusiasmo foi transbordante, eufórico e indescritível, sendo os aviadores constantemente ovacionados, ao mesmo tempo que das janelas engalanadas com vistosas colgaduras, eram lançadas, com profusão, inúmeras pétalas de flores. Tive o gosto de os ver entrar no hotel, de uma janela em frente. Voltei a vê-los no Porto, no dia em que foram descerrar uma lápide comemorativa da travessia, colocada no lado esquerdo da base do monumento ao Infante D. Henrique.

Não sei se chegaram a ser recebidos na Câmara do Porto pois, nessa altura e por vários anos, a Câmara esteve instalada no Paço Episcopal, só mais tarde sendo construído o actual e majestoso edifício. Mas Vila Nova de Gaia quis exteriorizar a sua enorme alegria e o seu nunca desmentido fervor patriótico, erigindo um monumento em honra dos insignes aviadores que, suponho, foi o primeiro a ser erigido em Portugal e a eles dedicado.

Depois do Porto, os aviadores foram então recebidos em Gaia, que não tinha comparação com o que é a cidade dos nossos dias. Pouco comércio havia, apenas modesta mercearias, alguns talhos, farmácias e uma ou outra drogaria. Bancos ou cinemas, quem os queria tinha que atravessar a ponte… O mesmo sucedendo quando se precisava comprar sapatos ou camisas. Os transportes públicos eram assegurados apenas por duas linhas de Carros Eléctricos, uma da Praça da Liberdade, no Porto, para Santo Ovídio, e outra que, partindo do mesmo local, terminava em Coimbrões.

Os aviadores foram aguardados por uma multidão compacta e pelas pessoas mais gradas da Vila, entre as quais se destacava o Presidente do Município acompanhado pela vereação, sendo formado um luzido cortejo que os acompanhou até ao largo onde estava o monumento a inaugurar, largo esse que, em nome dos homenageados, tomou o nome de Largo dos Aviadores. O cortejo desfilou pela Avenida da República (então ainda com poucos prédios), Rua Álvares Cabral e pela rua hoje chamada Francisco Sá Carneiro. No acto da inauguração ouviram-se os acordes de uma banda de música, subiram foguetes ao ar e a multidão não se cansou de vitoriar os aviadores. Nas ruas do percurso, apinhadas de gente, as varandas e janelas dos prédios ostentavam vistosas decorações. Também ignoro se os aviadores chegaram a ser recebidos na Câmara, mas creio que não, pois a Câmara não tinha instalações dignas. Estava instalada (mal) num antigo prédio da Rua Cândido dos Reis, só depois sendo construído o actual edifício. Nessa memorável noite voltei a ver os aviadores de casa dos meus tios, Arminda e Miguel da Silva Leal, na Rua Álvares Cabral, casa já demolida e cuja fachada era coberta de heras. Ficava mesmo pegada à farmácia que ainda hoje existe. Ainda haverá quem se lembre?

O malogrado Comandante Sacadura Cabral teve um fim triste, pois desapareceu quando sobrevoava o Mar do Norte, pilotando um avião que tinha ido buscar a Amesterdão. O seu desaparecimento causou uma enorme mágoa no inconformado povo português, e o seu corpo nunca viria a ser resgatado. Já o sábio Almirante Carlos Viegas Gago Coutinho, homem pequeno mas com uma alma grande, foi mais feliz, pois viria a falecer já de avançada idade, tendo sido uma figura popular e muito querida. Simpático, via-se com frequência nas ruas de Lisboa, sempre com a sua inseparável boina azul. Foi ele o inventor do “sextante”, que muito viria a facilitar a navegação aérea.

Como curiosidade lembro que, passados alguns anos da travessia do Atlântico pelos nossos aviadores, apareceu no céu de Portugal, com grande espanto da população, um enorme dirigível alemão, o Graf Zeppelin, que, creio, foi o maior de quantos existiram, e no qual Gago Coutinho viria a ser convidado, pelo alemães, para tomar parte numa viagem ao Brasil que, julgo, nunca chegou a ser efectuada, pois aquele grande dirigível acabou por explodir.

Tudo o que aqui fica narrado não é fruto da imaginação, mas sim o relato de factos, vários dos quais presenciei e que permanecem arquivados na minha memória. E hoje, ao recordá-los, tenho a sensação de que os meus ouvidos ainda escutam os ecos vibrantes do Porto e de Gaia a gritar, a plenos pulmões: “Vivam os aviadores!… Viva Portugal!…”.

 

 Carlos Gomes Oliveira, 2003.05.23

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2 thoughts on “Gago Coutinho e Sacadura Cabral no Porto e em Gaia

  1. Estou a ler fascinada as historias do meu tio avo carlos! Sempre me foi uma pessoa muito querida: ele e a tia Justa que visitei algumas vezes em Gaia. Nao lhe conhecia este dom de escrita! Mas suspeitava…Durante varios anos lhes enviei um postal no Natal ao qual ele respondia com uma belissima carta datilografada. Obrigada pela partilha …com ela fico tambem a saber mais sobre a minha Avó a sua irma Ge!

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