Memórias da Infância e da juventude – a Graça

Memória do meu avô, Carlos Gomes Oliveira (1913-2005)

 

NOTA PRÉVIA: Casas das nossas memórias – Entrei na genealogia por acidente em 2005, quando morreram, no espaço de um mês, os meus avós paternos. Desse meu avô herdei inúmeros textos e fotografias, sendo que ele já guardava outros textos dos seus avôs. E assim comecei. Entre inúmeras gavetas e baús encontrei um texto que fazia referência a uma casa cuja fotografia eu já conhecia. Era a Quinta da Veiga, casa dos avós maternos do meu avô, em Padim da Graça. Nessa casa passavam férias os filhos e os netos do casal José Dias Gomes Braga e Maria Amélia de Faria Couto Gomes Braga, meus trisavós. A fotografia parecia dum local idílico e a descrição acentuava o mito. Em 2006 aventurei-me à procura da casa. Fui a caminho de Braga, depois Tibães, Padim da Graça. Encontrei-a quase sem procurar, numa curva do caminho, um pouco mais “baixa”, porque o nível da estrada subiu bastante. Mas era a tal! Ainda se apresenta imponente, com uma grande fachada lateral, um portão frontal face à estrada e a famosa ramada. Imagino o que terá sido numa época em que a construção era mais escassa. (restante texto disponível em: http://genealogiafb.blogspot.pt/2017/08/casas-das-nossas-memorias.html)

 

Memórias da Infância e da juventude – a Graça

Numa soalheira manhã de outubro de 1917 deixámos a nossa casa a caminho da Estação de São Bento. Íamos todos: os meus saudosos pais, a Gé, o Fernando e eu. Ia ser a minha primeira viagem de comboio, o que me provocava uma natural excitação! Entrámos na gare e tomámos o lugar na carruagem de segunda classe (então havia carruagens de 1ª, 2ª e 3ª). Em breve se ouviu o estrepitoso silvo da máquina a vapor, logo seguido do grito estridente “Partida!”. E assim começou a minha primeira viagem de comboio, a caminho de Braga.

Entusiasmei-me com os três túneis, com a sua extensão e com a novidade que tudo representava para mim. Depois duma breve paragem em Campanhã, lá fomos seguindo, “pouca terra, pouca terra”, admirando a paisagem desconhecida que se ia desenrolando diante dos nossos olhos e prestando atenção às recomendações dos nossos pais para nos acautelarmos das faúlhas que a máquina ia vomitando. E assim, através do ridente Minho, pára aqui, pára acolá, chegámos a Braga.

No largo fronteiro à estação tomámos um char-a-bancs (um carrão, puxado por dois cavalos, com bancos laterais e que tinha uma cobertura semelhante a um dossel). Era o único meio de transporte que, então, nos podia levar à Graça, que dista cerca de cinco quilómetros de Braga. E nós, os pequenos, cheios de expectativa e ansiosos por chegar, íamos maravilhados com tão típico meio de transporte, enquanto passávamos por São Jerónimo do Real, pelos Doze Sobreiros, por Tibães e, finalmente, a Graça, onde já nos esperava, na Quinta da Veiga, a nossa Avó. Senhora austera e de porte distinto, estava acompanhada da tia Clotilde, que irradiava simpatia e bondade. Também lá fomos encontrar a tia Lula, o Tio Eurico e a Maria Alice.

A casa da quinta era um enorme e magnífico casarão, para onde entramos por uma escadaria exterior, em pedra, que dava diretamente acesso à sala de visitas, mobilada ao estilo da época, a um canto da qual estava o piano. A seguir ficava o quarto da avó, o da tia Clotilde, seguindo-se um largo e longo corredor, em forma de “L”, ladeado por vários quartos e pela ampla sala de jantar, em cujas paredes estavam pintadas paisagens do Minho, aspetos do rio Cávado e uma graciosa cercadura de diversos frutos. A um dos lados do corredor ficava a sala de bilhar, o quarto de banho e, no exterior da sala de bilhar, um caramanchão onde havia saborosas uvas, que a avó não queria que depenicássemos. No rés-do-chão ficavam as adegas e a habitação dos caseiros, que confinava com uma grande eira, na qual se realizavam alegres desfolhadas e malhadas. Ao lado da casa existia um grande jardim, que tinha um enorme portão com frente para a estrada de Braga. No jardim havia um lago circular, com repuxo, no qual se ouvia o coaxar das rãs. Havia, também, um pequeno tanque, com a respectiva bomba. Separada por um gradeamento situava-se a quinta de cultivo, na qual sobressaía um enorme tanque. Junto ao varandim viam-se algumas alfaias agrícolas, o aido dos porcos, o galinheiro, o estábulo e um indispensável carro de bois.

Trocados os cumprimentos e beijos da praxe, depressa corremos para o jardim, onde havíamos de descobrir as “pernas de pau”, ou andas, e os “arcos”, pequenos arquinhos de madeira que, com dois pauzitos, atirávamos uns aos outros e que faziam as nossas delícias. Mais tarde chegou a tia Né (Albertina), o tio Tomás e o Rogério, aparecendo também o tio Toneca, sempre bem-disposto e bonacheirão.

O primeiro dia foi, pelos pequenos, passado na brincadeira. Até que à hora de jantar a Ana, cozinheira, fez soar estrepitosamente a sineta, instalada no exterior da janela da cozinha, chamando para a mesa, o que ninguém demorou a fazer! Era uma enorme mesa e, à sua volta, sentámo-nos todos, ficando à cabeceira a avó. As refeições eram sempre servidas pela Maria. Muitas vezes, no fim de jantar, aparecia o abade da freguesia, guloso pelo leite-creme que a avó lhe oferecia e pelo qual ele dava o cavaquinho dizendo, com bonomia: “Papa amarela, Senhora D. Maria! Papa amarela!”. Aos domingos, lá ia toda a família, de ranchada, à missa à Senhora da Graça.

Outros dias foram decorrendo, em que dávamos longos passeios pela aldeia, até ao pinhal, ao Convento de Tibães, à Senhora da Graça, aos Doze Sobreiros e, o que mais apreciávamos, ao Rio Cávado. Saindo de casa, passávamos pelo “talhinho” e, já perto do rio, pelo “talho”, campos de cultivo pertencentes à nossa avó. Tinha, então, o rio, a meio, um grande areal, para o qual se passava pelas “passadeiras”, grandes pedras lançadas à água. A avó tinha três barracas, iguais às usadas nas praias, e que mandava armar no areal. Despidas as nossas roupas e vestidos os janotas fatos de banho, depressa íamos brincar e mergulhar nas calmas águas do rio, que hoje é muito diferente. No rio existiam duas barcas, uma mais pequena, para o transporte de passageiros, e outra maior, para o transporte de carros de bois ou gado. Como o rio era pouco profundo, as barcas não tinham remos e eram accionadas à vara. E os nossos fatos de banho? Lembro-me perfeitamente como eram: o da minha mãe era de flanela preta, debruado a branco, com calças até aos pés e um largo blusão. Na cabeça uma touca, também feita da mesma flanela. O do meu pai era um grosso camisolão de lã azul e uns largos e compridos calções da mesma cor. O meu era uma tanga, com calção até ao joelho e meia manga, com listas horizontais vermelhas e brancas. Os dos meus irmãos eram semelhantes, só diferindo na cor.

Em frente à quinta da avó, a Quinta da Veiga ou Quinta Gomes Braga, havia outra, do banqueiro Pinto da Fonseca. Tinha, no muro exterior, uma pequena fonte donde jorrava abundantemente uma água puríssima, tão fresca e cristalina que embaciava qualquer copo. O avô Gomes Braga, a quem nenhum neto chegou a conhecer, morreu a pedir água da Graça…

Brincadeiras, passeios, jogos, partidas entre primos, em que o tio Toneca participava, preenchiam os nossos descuidados dias. Quando a caseira cozia, fazia sempre umas pequenas broinhas, a que chamávamos “patusquinhos” e que, quentinhas, saboreávamos barradas de manteiga. Ainda as recordo com saudade, pois eram realmente uma delícia!

E como eram alegres as desfolhadas! Vinham rapazes e raparigas da aldeia, que se sentavam no chão de eira, ao redor das espigas, cantando alegremente, enquanto iam desfolhando o milho. Quando algum rapaz encontrava o milho-rei tinha que beijar todas as raparigas, fazendo elas o mesmo aos rapazes, quando encontravam uma dessas espigas vermelhas. E bebia-se e petiscava-se, passando um alegre serão. Também as malhadas tinham cor e alegria. Dispostas as espigas no centro da eira, formavam-se dois grupos, um de um lado, outro do outro que, com grandes malhos, iam separando o milho.

E como nós ficávamos contentes quando o carro de bois tinha que sair para qualquer serviço e íamos em cima dele, eufóricos e sorridentes!

E as vindimas, como eram alegres! O “talho”, que era o maior campo da avó, era rodeado por extensas ramadas. Vinham rapazes e raparigas, trazendo cestos e escadas, pelas quais subiam, enchendo, pouco a pouco, os cestos de magníficos cachos. As uvas eram depois transportadas para o lagar, onde homens descalços, cantando alegremente, as iam pisando.

Como estas felizes férias, outras temporadas se passaram, num espírito verdadeiramente amistoso.

 

 Carlos Gomes Oliveira, 1995.09.30

 

NOTA FINAL: Familiares do meu avô, referidos no texto

  • Isaura Margarida Gomes Braga de Oliveira – mãe
  • Joaquim da Ascenção Souza Oliveira – pai
  • Graziela Isaura Gomes Oliveira (Gé) – irmã
  • Fernando da Ascenção Gomes de Souza Oliveira – irmão
  • Maria Amélia de Faria Couto Gomes Braga – avó materna
  • Clotilde da Boa Vontade Gomes Braga – tia materna
  • Laurentina Alice Gomes Braga Vallada (tia Lula) – tia materna
  • Eurico Pinto Vallada – tio por afinidade
  • Maria Alice Gomes Vallada Martins – prima-irmã
  • Albertina Gomes Braga Ferreira (tia Né) – tia materna
  • Tomás Soares Ferreira – tio por afinidade
  • Rogério Augusto Gomes Ferreira – primo-irmão
  • António Gomes Braga (tio Toneca) – tio materno
  • José Dias Gomes Braga – avô
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