Recordações do Natal (Anos 1910-1930)

Memória do meu avô, Carlos Gomes Oliveira (1913-2005)

 

A minha mais longínqua recordação do Natal é a de uma consoada em casa do meu avô paterno, em 1917, em que eu não tinha ainda cinco anos. Além dos meus avós, José e Maria, estavam as minhas três tias solteiras, Beatriz, Políbia e Lucinda, que viviam com os pais, e a minha prima Corantina, que igualmente vivia com os avós, e de quem eu, segundo dizem, fui um boneco… Estavam igualmente os meus pais com os três filhos, a tia Maria Pia com o tio Encarnação e os três filhos, Raul, Alberto e Joaquim, a tia Zulmira e o tio Mário, que não tiveram filhos.

Terminada a abundante e tradicional ceia, os pequenos pediram licença para sair da mesa e foram até à cozinha buscar panelas e testos para virem tocar e cantar as “boas festas”. E assim, alegres e contentes, irromperam pela sala de jantar, cantarolando:

Vimos dar as boas festas

A estes nobres senhores.

Que nasceu o Deus menino

Em Belém, entre os pastores.

E sempre cantando e batendo desalmadamente nas pobres panelas, vieram pelo corredor (que ligava a sala de jantar à cozinha) onde estava uma mesa de pé-de-galo com vários pratos de muito boa louça, do serviço que tinha sido utilizado na ceia… E a cantoria continuava:

Esta casa cheira a unto,

Aqui mora algum defunto!

Esta casa cheira a breu,

Aqui mora algum judeu!

Vínhamos todos felizes, radiantes, em fila indiana e zurzindo impiedosamente nos infelizes tachos. Até que alguém do fim da fila se lembrou de dar um empurrão, indo todos de roldão em cima da desventurada mesa, que tombou, deixando cair os pratos, que ficaram em cacos… Nós, os pequenos, fugimos espavoridos e calados, à espera de um grande sermão. Mas o avô, imperturbável, só disse: “Que foi? Por que se calaram? Quero alegria! A festa continua! É festa, é festa!”

 

Outro Natal, no ano seguinte (1918), foi passado na Rasa (Vila Nova de Gaia), que então era considerado muito longe, em casa do meu tio-avô João. Entre grandes e pequenos, estavam mais de 30 pessoas: o tio João e a tia Marquinhas (irmã do Cunha da Rasa), com os quatro filhos do casal, Zola, Maria Teresa, Alice e Fernando, e duas netas do casal, Dília e Fernanda; os meus avós, José e Maria, com as três filhas solteiras, Beatriz, Políbia e Lucinda, e a neta, filha do primeiro casamento da tia Arminda, Corantina; os meus pais, Isaura e Joaquim, com os três filhos, Gé, Fernando e Carlos; a tia Arminda e o tio Leal com os cinco filhos, Maria Eugénia, Mário, Maria Arminda, Guilherme e João; a tia Maria Pia e o tio Encarnação com os três filhos, Raul, Alberto e Joaquim; a tia Zulmira e o tio Mário, sem filhos.

As filhas do tio João cozinhavam primorosamente e eram peritas em doçaria. Assim, a ceia decorreu em ambiente de franca alegria, todos saboreando o indispensável bacalhau cozido, os bolinhos de bacalhau e o bacalhau esfiado: os três pratos que, nas noites de natal, eram tradicionais na nossa família. Depois vieram as rabanadas de leite, de mel e de vinho fino, as filhós, os bolinhos de bolina, os formigos, as frutas secas e um sem número de outras variadas iguarias. Terminada a ceia, o primo Fernando, bastante mais velho, levou a pequenada para um grande salão, onde lhes ensinou, em coro, o “José Francisco”:

José Francisco António da Costa Braga,

Nosso amigo e protector,

Chim chim pó pó. (…)

No dia seguinte, todos tomaram parte num pantagruélico almoço, depois do qual, sempre com o primo Fernando como guia, fomos dar um passeio à Quinta da Mazorra (à actual Avenida Infante Dom Henrique, em Gaia), que pertencia ao tio João e que, muitos anos depois, havia de ser cortada pela autoestrada nº1. O jantar decorreu com a mesma alegria e boa disposição do almoço. Ao fim da noite, os dois irmãos, o meu avô José e o meu tio-avô João, despediram-se abraçados, prolongadamente, talvez com o pressentimento de que seria o último natal em que se juntavam. E foi mesmo, pois no ano seguinte, em 1919, o meu avô faleceu.

 

Outros Natais de que melhor me lembro foram os passados em casa da minha avó materna, na sua casa da Rua de Santa Catarina, 1212 (entretanto demolida), mesmo em frente ao prédio do Registo Civil. Era uma grande casa, com um óptimo quintal onde tantas e tantas vezes brinquei!

Esses eram os Natais mais alegres que passei, pois juntava-se sempre muita família que, a princípio, tinha muitas crianças. A sala de jantar era enorme, com uma grande mesa ao centro, à cabeceira da qual se sentava a avó. Recordo a presença da tia Clotilde, solteira, que vivia com a avó; a tia Lula com o tio Eurico e a Maria Alice; a tia Né com o tio Tomaz e o Rogério; o tio Toneca; a tia Gina com o Zeca, a Maria Angelina, o Mário, a Fernanda, a Lídia e a Zirinha; a tia Maria José, com o tio Eduardo e o Hugo; a tia Alina, com o tio Begonha, a Maria Amélia, o Eugénio, a Loló, o Armando, a Maria de Lourdes e os gémeos Fernando e Arlindo; e, claro, os meus pais com os três filhos. Nem sempre todos se juntavam, mas normalmente a maioria comparecia, estando só menos vezes os Begonhas.

Nessas ocasiões a Ana (cozinheira da avó), sempre cuidadosa e atenciosa, aprimorava-se, apresentando óptimas ceias de natal! A Maria, com as criadas de sala dos restantes familiares, servia à mesa. A despeito da mesa ser muito grande, às vezes era preciso juntar outra mais pequena, à qual a pequenada se sentava. A ceia decorria em boa disposição, com a avó senhorialmente sentada à cabeceira. Finda esta, todos se dirigiam para a grande sala de visitas, onde se brincava, cantava, tocava e dançava. Por vezes o tio Begonha, monárquico fervoroso, ia para o piano tocar o Hino da Carta, com o tio Tomaz a dar cavaco! O tio Toneca, bonacheirão, tinha sempre uma brincadeira ou uma partidita!

Muitas vezes, os meus irmãos e eu dormíamos lá essa noite e, no dia de natal, íamos com a tia Clotilde à missa, à Capela da Senhora da Conceição, na Constituição. Também outros primos às vezes lá dormiam. Em algumas noites de muita chuva regressávamos a casa de trem (carro a cavalos), que chamávamos para o Marquês, onde faziam praça. Por essa altura ainda os automóveis se contavam. Na família, o primeiro automóvel a aparecer foi o Minerva azul-escuro do tio Tomaz, um grande carro descapotável, de oito lugares. Normalmente era o Rogério a conduzir, pois o tio Tomaz engalinhava com a marcha atrás! Por esses tempos também o tio Begonha tinha dois carros, um Berliet preto, e um outro, mais pequeno, cuja marca já não recordo, ambos fechados.

(…)

 

Carlos Gomes Oliveira, 1997.07.22

 

NOTA FINAL: Familiares do meu avô, referidos no texto (organizados por núcleos)

 

Natal 1917:

  • José d’Ascenção Souza Oliveira – avô paterno
  • Maria Gonçalves d’Amorim – avó paterna
  • Beatriz d’Amorim Oliveira – tia paterna
  • Políbia d’Amorim Oliveira – tia paterna
  • Lucinda d’Amorim Oliveira – tia paterna
  • Corantina Arminda Vieira de Oliveira (Alvarenga) – prima direita

 

  • Joaquim d’Ascenção Souza Oliveira – pai
  • Isaura Margarida Gomes Braga (de Oliveira) – mãe
  • Graziela (Gé) Isaura Gomes Oliveira (Fontes) – irmã
  • Fernando da Ascenção Gomes de Sousa Oliveira – irmão
  • Carlos da Ascenção Gomes Oliveira

 

  • Maria Pia d’Amorim Oliveira Encarnação – tia paterna
  • Joaquim Oliveira Encarnação – tio por afinidade
  • Raul de Oliveira Encarnação – primo direito
  • Alberto de Oliveira Encarnação – primo direito
  • Joaquim de Oliveira Encarnação – primo direito

 

  • Zulmira da Boa Vontade d’Amorim Oliveira (Ribeiro) – tia paterna
  • Mário da Costa Ribeiro – tio por afinidade

 

Natal 1918:

  • João de Souza Oliveira – tio-avô
  • Maria da Cunha Oliveira – tia-avó por afinidade
  • Isolina (Zola) Oliveira – prima segunda
  • Maria Teresa Oliveira – prima segunda
  • Alice Oliveira – prima segunda
  • Fernando Oliveira – primo segundo
  • Dília – prima terceira
  • Fernanda – prima terceira

 

  • José d’Ascenção Souza Oliveira – avô paterno
  • Maria Gonçalves d’Amorim – avó paterna
  • Beatriz d’Amorim Oliveira – tia paterna
  • Políbia d’Amorim Oliveira – tia paterna
  • Lucinda d’Amorim Oliveira – tia paterna
  • Corantina Arminda Vieira de Oliveira (Alvarenga) – prima direita

 

  • Arminda d’Amorim Oliveira (Leal) – tia paterna
  • Miguel Joaquim da Silva Leal Júnior – tio por afinidade
  • Maria Eugénia Leal (da Silva) – prima direita
  • Mário Augusto Leal – primo direito
  • Maria Arminda Leal – prima direita
  • Guilherme Augusto Leal – primo direito
  • João Jaime Leal – primo direito

 

  • Joaquim d’Ascenção Souza Oliveira – pai
  • Isaura Margarida Gomes Braga (de Oliveira) – mãe
  • Graziela (Gé) Isaura Gomes Oliveira (Fontes) – irmã
  • Fernando da Ascenção Gomes de Sousa Oliveira – irmão
  • Carlos da Ascenção Gomes Oliveira

 

  • Maria Pia d’Amorim Oliveira (Encarnação) – tia paterna
  • Joaquim Oliveira Encarnação – tio por afinidade
  • Raul de Oliveira Encarnação – primo direito
  • Alberto de Oliveira Encarnação – primo direito
  • Joaquim de Oliveira Encarnação – primo direito

 

  • Zulmira da Boa Vontade d’Amorim Oliveira (Ribeiro) – tia paterna
  • Mário da Costa Ribeiro – tio por afinidade

 

Outros natais:

  • Maria Amélia de Faria Couto (Gomes Braga) – avó
  • Clotilde da Boa Vontade Gomes Braga – tia materna

 

  • Laurentina (Lula) Alice Gomes Braga (Vallada) – tia materna
  • Eurico Pinto Vallada – tio por afinidade
  • Maria Alice Gomes Vallada (Martins) – prima direita

 

  • Albertina (Né) Gomes Braga (Ferreira) – tia materna
  • Tomaz Soares Ferreira – tio por afinidade
  • Rogério Augusto Gomes Ferreira – primo direito

 

  • António (Toneca) Gomes Braga – tio materno

 

  • Angelina (Gina) Gomes Braga (Soares Coelho) – tia materna
  • José (Zeca) Gomes Cancela – primo direito
  • Maria Angelina Gomes Cancela (Loureiro) – prima direita
  • Mário Gomes Cancela – primo direito
  • Fernanda Alice Gomes Cancela (Laguez) – prima direita
  • Lídia Júlia Gomes Cancela (Chaves) – prima direita
  • Alzira (Zirinha) Gomes Cancela – prima direita

 

  • Maria José Gomes Braga (Barbedo) – tia materna
  • Eduardo Barbedo – tio por afinidade
  • Hugo Eduardo Gomes Barbedo – primo direito

 

  • Alina Amélia Gomes Braga (Begonha) – tia materna
  • Carlos Afonso Magalhães Begonha – tio por afinidade
  • Maria Amélia Braga de Begonha (Correia da Silva) – prima direita
  • Eugénio Carlos Braga de Begonha – primo direito
  • Maria Alina (Loló) Braga de Begonha (Coimbra) – prima direita
  • Armando Alberto Braga de Begonha – primo direito
  • Maria de Lourdes Braga de Begonha – prima direita
  • Fernando Braga de Begonha – primo direito
  • Arlindo Braga de Begonha – primo direito

 

  • Joaquim d’Ascenção Souza Oliveira – pai
  • Isaura Margarida Gomes Braga (de Oliveira) – mãe
  • Graziela (Gé) Isaura Gomes Oliveira (Fontes) – irmã
  • Fernando da Ascenção Gomes de Sousa Oliveira – irmão
  • Carlos da Ascenção Gomes Oliveira

 

 

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