Reabilitação da minha Ribeira – parte I, das memórias pessoais

Memória do meu avô, Carlos Gomes Oliveira (1913-2005)

 

Ora eu nasci no Porto, mas criei-me em Gaia, Almeida Garrett (1799-1854)

 

Eu não posso dizer como o ilustre escritor, que tantas páginas nos legou e em cuja leitura sempre encontro renovado prazer. Escrevo no ano em que se comemoram os 200 anos do seu nascimento. E tendo em mente a frase que encima este escrito, adapto-a a mim próprio: eu nasci e criei-me no Porto, mas vivi mais de metade da minha tão extensa vida em Gaia. E em Gaia espero terminar os meus dias, embora deseje que o meu corpo repouse na cidade querida onde vi a luz do dia.

Nasci a 7 de maio de 1913, em casa de meus pais, na Rua de Cima de Muro da Ribeira, 54, na tripeiríssima freguesia de São Nicolau. Fui batizado na igreja paroquial a 12 de Junho de 1913 pelo reverendíssimo abade D. José Gonçalves Bertão. Os meus pais foram Joaquim da Ascenção de Souza Oliveira e Isaura Margarida Gomes Braga Oliveira. Os meus padrinhos foram o avô paterno, José da Ascenção de Souza Oliveira, e a avó materna, Maria Amélia de Faria Couto Gomes Braga.

Quando cheguei a este mundo já encontrei dois irmãos, a Gé (Graziela) e o Fernando. A nossa família vivia num prédio pertença do avô Oliveira, sendo que nós ocupávamos o rés-do-chão e o 1º andar. O avô e a avó, Maria Gonçalves de Amorim, mais as tias Beatriz, Políbia e Lucinda, todas solteiras, e ainda a prima Corantina, filha da Tia Arminda, viviam no 2º, 3º e 4º andares, sendo as águas furtadas para serviço.

Fiz a instrução primária no Colégio de São Francisco e o curso comercial na Escola Oliveira Martins. Depois fiz o curso de contabilidade do professor Samuel Cerveira da Costa. Fiz ainda o curso de francês do Riley Institute. De todos os meus professores, quero destacar o a professora da 4ª classe, D. Emília Cândida de Azevedo Moreira, o excelente professor de Português da Oliveira Martins, Dr. Rodrigo Fernandes Fontinha, a quem muito devo, e o professor Araújo Teixeira (pai), de Francês.

A meninice e a mocidade, passei-as na Rua de Cima de Muro. A vida na Ribeira de então, como aliás no resto da cidade, era completamente diferente dos dias que ora correm. O povo da Ribeira era honesto, trabalhador e respeitador. Muito se tem denegrido as gentes da Ribeira, por vezes caluniando-as e fazendo crer serem má gente. Pura mentira! Muitos viviam do rio e do intenso movimento de cargas e descargas dos inúmeros vapores e navios que então fundeavam junto às margens do Douro, entre a ponte e os estaleiros de Gaia. Havia barqueiros e carregadores, calafates e vendedores, importadores, exportadores e peixeiras! Na Rua de São João existiam numerosos armazéns e mercearias. Não existiam, porém, os restaurantes e bares que hoje proliferam, nem a vida nocturna actual. Caindo a noite, a Ribeira era deserta, existindo apenas o Café Rio d’Ouro, em Cima de Muro. Cima de Muro, onde tantas vezes brinquei, ao fim do dia, com o meu irmão Fernando, com o Raul Saraiva, os Prata de Lima, os irmãos Rodolfo, Fernando e Albino Gil Conde e ainda a filha do Sr. Borges, cujo nome esqueci. Em Cima de Muro só nós, os “meninos”, brincávamos. Os “garotos” não se atreviam a subir.

O Raul foi para o Brasil e nunca mais soube nada dele. Os Prata de Lima mudaram para a Praça Infante D. Henrique e fomos muitas vezes brincar a casa deles. Aos Gil Conde e aos Borges perdemos-lhes o rasto.

 

(continua)

 

Carlos Gomes Oliveira, 1999

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