Reabilitação da minha Ribeira – parte II, da Rua de Cimo de Muro

Memória do meu avô, Carlos Gomes Oliveira (1913-2005)

 

(continuação)

 

Fazendo um apelo à minha memória da infância, vou procurar dizer quem então vivia na Rua de Cima de Muro. Subindo as escadas, vindo da Praça da Ribeira, e começando pela esquerda. Nos números 62 e 63 era o escritório do tio Encarnação, marido da minha tia paterna, Maria Pia. Era proprietário do rebocador Liberal, além de muitos outros barcos. No 61 vivia o Sr. Vidal, espanhol, comerciante de mercearia. No nº 60 vivia o Sr. José Pereira Santo Amaro, avultado capitalista, e a esposa, D. Políbia, que eram os padrinhos da minha tia Políbia. A seguir, no 57, 58 e 59 era o referido café. Ao lado, no 54, 55 e 56, vivia a nossa família, na casa mais alta da Rua de Cima de Muro, como dizíamos. O avô era o director da Companhia de Seguros Indemnizadora (mais tarde Douro) e o meu pai era o tesoureiro dessa mesma companhia, que ficava na Praça Infante D. Henrique.

O meu avô era uma autoridade em Direito Marítimo, resolvendo com frequência diversas contendas. Na época, havia, no Porto, um grande advogado, o Dr. Leopoldo Mourão, que teve um pleito com o Dr. Afonso Costa, estadista e advogado, precisamente sobre Direito Marítimo. O Dr. Mourão, que sempre se aconselhou com o meu avô, ganhou a questão, o que motivou a seguinte frase do Dr. Afonso Costa: “… e como atesta o meu colega, ou por outra, o Sr. Ascenção Oliveira…”.

No prédio a seguir habitava (…) o comandante do grande rebocador de alto mar Lusitânia. No 2º andar do 47 morava o Sr. Valentim, a esposa e o filho, Tim. O Sr. Valentim tinha um salão de barbearia e cabeleireiro na esquina da Rua Mouzinho com o Largo de São Domingos. No 1º andar vivia um casal com dois filhos, gente de bem de cujos nomes não me recordo. No rés-do-chão vivia a família Saraiva, pais do meu amigo Raul. No prédio pegado morava a família Gil Conde, amigos do meu pai, com, creio, 4 filhos, embora só me recorde de 3. Foi na lancha deles que dei o primeiro passeio no Rio Douro, cujas águas, anos depois, tantas vezes viria a sulcar a remo e à vela. O Sr. Gil Conde tinha uma importante firma de serralharia. Foi ele quem fez o primeiro aparelho TSF que nós tivemos, e que era alimentado por uma bateria de automóvel! A seguir residia a família Canastra, gente mais modesta, mas séria. Na revolução de 3 de fevereiro, a casa deles foi atingida por diversas balas de metralhadora, tendo morrido duas pessoas e escapado, milagrosamente, um rapaz da minha idade, que chegou a estar na morgue, dado como morto.

Algumas casas adiante vivia a Dr.ª Guilhermina Prata, médica, casada com o Sr. Artur Rebelo de Lima, despachante da alfândega. Tinham dois filhos que lá nasceram e viveram. O mais velho, o Zé, foi despachante como o pai, enquanto que o mais novo, o Fernando, foi depois médico. De ambos fomos amigos. Inúmeras vezes fomos brincar para o grande salão que existia na casa deles. E depois, na Praça Infante D. Henrique, quando se mudaram. Nesse mesmo prédio vivia o Sr. Alberto Marques, esposa e filhos, Olga e Beto. O Sr. Marques era cunhado do Sr. Rebelo de Lima e era um importante armazenista de mercearia. Andando mais um pouco era a casa das Senhoras Soares, uma das quais era professora de piano. Duas casas adiante morava o abade de São Nicolau, D. José Gonçalves Bertão, que me batizou e aos meus irmãos.  Nesse tempo ainda lhe pedíamos “a bênção, sr. Abade!”.

No prédio nº 34, também propriedade do meu avô, vivia a tia Zulmira, casada com Mário da Costa Ribeiro. O tio Mário tinha várias representações, entre elas a do papel da firma Conquistador, com que ganhou muito dinheiro. Depois era a casa do Sr. Martins e da esposa, D. Rosa. Eram proprietários de um talho e tinham 3 filhos, a Virgínia, a Ofélia e o José, que foram meus condiscípulos no Colégio de São Francisco. Perto da ponte vivia o Sr. Borges, conceituado comerciante. Adiante vivia um irmão do Sr. Saraiva, de quem já falei, com a esposa e o filho. Na última casa, que faz esquina para a Rua da Lada, habitava o Sr. Anastácio, sócio da firma Anastácio, Cunha e Pimenta, Ld.ª. O nosso médico, Dr. A??? Tinha consultório à entrada do Muro dos Bacalhoeiros, no prédio onde está hoje um hotel.

Num excelente prédio, que foi demolido, perto do que resta da ponte Pênsil, vivia a Sr.ª D. Rosa Ferreira dos Santos Vieira, com a filha Sr.ª D. Maria. Esta última fora colega da minha mãe no Colégio von Hafe, onde eram internas e foram sempre muito amigas. A Sr.ª D. Rosa descendia do Conde de Ferreira e tinha numerosos prédios e uma avultada fortuna. A minha tia paterna Arminda casou em primeiras núpcias com um filho da Sr.ª D. Rosa, José Joaquim Vieira, que faleceu bastante novo. Desse casamento nasceu a minha prima direita Corantina, mais velha que eu. Esta minha prima vivia com os avós. A mãe voltara a casar, com o tio Miguel. O tio Miguel Joaquim da Silva Leal Júnior foi notário em Gaia, foi eleito Presidente da Câmara Municipal e foi fundador da Misericórdia de Gaia. A Corantina foi infeliz, esteve casada pouco mais de um ano e veio a falecer de parto. Salvou-se o filho, José Augusto, que ficou a viver com as minhas, já citadas, tias solteiras. Por morte da Sr.ª D. Rosa, de quem ele era bisneto, foi também herdeiro. Só o José Augusto herdou 14 prédios de rendimento, e não foi o único herdeiro! A Sr.ª D. Rosa tinha automóvel com chauffeur. Era um Panhard azul e foi o primeiro automóvel em que eu andei.

 

(continua)

 

Carlos Gomes Oliveira, 1999

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2 thoughts on “Reabilitação da minha Ribeira – parte II, da Rua de Cimo de Muro

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